Não estava ali por estar apaixonada. Não dormira bem naquela noite por estar pensando em sua própria cegueira e nas coisas que abandonara por eles. Tentou secar-se um pouco para sentir-se menos patética. Não encontrava a estação de rádio, nem o sono, nem a porta do closet. Sentia frio e uma angústia rara. Era como se agora tivesse provas de que havia enganado-se todo esse tempo, desde a infância até a idade adulta, e agora em sua velhice que cheirava a mijo e talco. A velhice, que agora recaía sobre a pele das mãos, os cantos das bocas – onde o que antes era sorriso insistia em reaparecer, tinha sabor de auto-engano. Tinha quatro vincos grossos de pele – dois de cada lado dos lábios também com aspecto de passado – que ressaltavam a idade que pensava ter. Não tinha mais escudos contra os anos e mais, não tinha mais desculpas suficientemente boas para não ter feito o que sonhara . Os culpados já não estavam. Eram fantasmas. Nem ela mesma estava. Há muito era vulto que tinha hora e rotina...