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Unicidade

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Unicidade seria estar hoje aqui . Imagem: Patrick Reault, Au coeur des lavandes.

Palabras para Julia - Kamchatka

Eau de Cartier

Cinco horrores construídos Cinco meses sem te esperar. Cinco dias em que me castigo. Cinco horas sem fotos, dramas. Cinco meses de escassos dias. Cinco meses sem as esperanças de construir dias de sol na varanda e beijos e todas as coincidências bobas que dilatam-se e adiantam-se quando nos dá por estar em estado de graça e sentir profundamente que não há equívocos, senões, e tudo é extasiante e res(a)cende beleza. Cinco anos feitos de meses. (E depois de poucas horas, enfeitiçados, te mostrava eu uma nesga de mundo, com Eau de Cartier e seus derivados que eu mesma emanava) Cinco meses sem antecipar a chegada. E sem encontrar rastros. Cinco meses sem tecer véus e sem nomear-te. Mas, nem foi hoje. Foi ontem. E tu nem sabes.

Espera

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ainda espero. coragem de amanhecer alguma outra. Que seja um pouco mais louca e atrevida e que tenha na brabeza com a qual encara os dias tanta, tanta intensidade para viver um grande amor quanto a sonhada. Ou mais. Imagem: Tina Modotti fotografada por Edward Henry Weston (1923).

Uma velha viva

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Não estava ali por estar apaixonada. Não dormira bem naquela noite por estar pensando em sua própria cegueira e nas coisas que abandonara por eles. Tentou secar-se um pouco para sentir-se menos patética. Não encontrava a estação de rádio, nem o sono, nem a porta do closet. Sentia frio e uma angústia rara. Era como se agora tivesse provas de que havia enganado-se todo esse tempo, desde a infância até a idade adulta, e agora em sua velhice que cheirava a mijo e talco. A velhice, que agora recaía sobre a pele das mãos, os cantos das bocas – onde o que antes era sorriso insistia em reaparecer, tinha sabor de auto-engano. Tinha quatro vincos grossos de pele – dois de cada lado dos lábios também com aspecto de passado – que ressaltavam a idade que pensava ter. Não tinha mais escudos contra os anos e mais, não tinha mais desculpas suficientemente boas para não ter feito o que sonhara . Os culpados já não estavam. Eram fantasmas. Nem ela mesma estava. Há muito era vulto que tinha hora e rotina...

Havia o mar

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Havia o mar quando chegavas e todas as suas cores e seus pequenos mundos. Havia o mar e as luzes e a macia areia que encontravas para somente em mim ficar. Mas eu tinha ainda algo que me protegia do sol e da aridez de quando tu me negavas. Eu tinha um porto. Feito de pequenas esferas e saliva. Eu olhava pela janela. E assim me abandonava. Imagem: John Singer Sargent Nonchaloir (Repose), 1911

Pontos finais

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Talvez somente estenda a mão quem acredita e entende. Tenho cá para mim que quem tenta entender não acredita. Me sirvo deste e escolho quase sempre a dúvida. A fé, eu não sei, mas parece que zomba, faz acreditar no que não sabemos se existe de fato. A fé esconde as verdades. A fé resgata do vácuo. Não, não, ela justamente leva a um vácuo. Um outro tipo de vácuo. Oblitera os sentidos. Ela sugere que abracemos algo, que coloquemos um ponto final. . . . . . . . . . me banho nas águas do mar e escuto seus cantos. Carrego o colorido dos orixás comigo, e pertenço a uma dessas entidades. Dizem que sou de Iemanjá e que por isso adoro perfumes e enfeites. A linda imagem é de Vicente Sampaio . Título: Água de cheiro